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Conexão
Brasil-Portugal

A 2ª Mostra Taturana de Cinema: Democracia e Antirracismo acontece a partir de uma parceria inédita entre Brasil e Portugal, com o propósito de promover uma reflexão conjunta sobre o racismo estrutural que atravessa ambos os países, enquanto sociedades formadas a partir do processo colonial europeu. Em Portugal, a Mostra é realizada pela produtora Wonder Maria Filmes, com o apoio da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), SOS Racismo, Plataforma Buala e Instituto da Mulher Negra em Portugal (INMUNE).

Este ano, a Mostra promove uma reflexão sobre questões enraizadas na estrutura econômica e cultural dos cotidianos brasileiro e português, mas que os extrapolam: estão também nas heranças deixadas pelo colonialismo e pela escravização em outros territórios com passado semelhante. Entender o porquê de determinadas situações e violências serem práticas comuns que se repetem nesses e em outros países – relacionadas ao tratamento que o Estado e outros setores sociais dedicam às populações colonizadas – é urgente e imprescindível.

No sentido de ampliar a rede de combate a essas continuidades, foram incluídas na programação deste ano – voltada também para Portugal –, oito obras cinematográficas produzidas por realizadores que trazem histórias vividas no continente africano e nas diásporas, e que configuram e adensam essa conexão.

O longa Sementes – mulheres negras no poder (2020), das brasileiras Éthel Oliveira e Júlia Monteiro, e o curta Filhas de Lavadeiras (2019), da brasileira Edileuza Penha, que tão bem encarnam a proposta da Mostra, são duas obras que nos fazem pensar de que maneira as lutas travadas por aquelas que vieram antes de nós, ou que estão ao nosso lado, são fundamentais para que possamos trilhar novos caminhos e acessar espaços e oportunidades antes negados às pessoas não brancas. Assim também ocorre com o curta Entremarés (Brasil, 2018), de Anna Andrade, escolhido para engrossar esta reflexão sobre como a força, os vínculos e as vivências das mulheres negras são muitas vezes a base de sobrevivência - afetiva e material - para as comunidades negras da contemporaneidade

Pensando ainda sobre como as gerações futuras refletem os processos históricos que as antecedem, os curtas Bastien (2016) e Arriaga (2019), ambos realizados em Portugal pelo balanta Welket Bungué, apresentam uma leitura ficcional-realista – diferente de todos os outros filmes da Mostra, inscritos nos gêneros documental e/ou experimental – sobre a realidade da juventude negra nas diversas periferias dos grandes centros urbanos. Somam-se ainda à programação geral, os curtas O Bocado da Cova da Moura que Há em Nós (2014), dos luso-caboverdianos Edson Diniz e Edu Semedo, e Travessia (2017), da brasileira Safira Moreira. Dois filmes que, apesar de possuírem narrativas e estéticas bastante distintas um do outro, propõem de igual forma uma reflexão aprofundada sobre memória, pertencimento e presença. 

E é também neste sentido de tocar no tema das ausências e das presenças que, a partir do curta Dor Fantasma (2020), realizado pelo angolano Kiluanji Kia Henda, que temos a oportunidade de conversar sobre de que forma o colonialismo vem se mantendo presente e nefasto em todos os lugares por onde passa: se deixando sentir na perpetuação das desigualdades e adoecendo os territórios surgidos desde o fim das lutas de libertação.

Esses oito filmes, escolhidos por uma curadoria em Portugal, somam-se à seleção e ao propósito inicial da Mostra, para colocar em destaque questões que abalam tanto o Brasil quanto Portugal, mas não só: dialogam com a prática antirracista como forma de organização estratégica e de luta, fundamental para o seu enfrentamento de maneira inequívoca e consciente.

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